ÌPÒRI
– O CULTO À PLACENTA
O
ìpòri é um dos três elementos que constituem a alma. Ele simboliza a
energia advinda diretamente de nossos ancestrais. Esta energia é ligada
a nossa cabeça (orí), ao nosso eledá (guia ancestral, Orixá) e ao nosso
destino (odù).
O ipori não é um ente individualizado, mas como uma
partícula de hereditariedade, que impõe sua marca na personalidade, na
vida, na saúde e portanto no destino de cada Ser. Uma espécie de “DNA
espiritual”.
Por ser imaterial, após a morte da pessoa, o ipori se
desprende e acompanhará aquela alma nas próximas reencarnações (atunwá),
funcionando como um registro de ancestralidade, quase como uma “caixa
preta” que registra ao longo de sucessivas existências, as emoções, as
experiências, as marcas de ancestralidade, etc.
Observemos que o conceito de ancestralidade, é muito mais
abrangente do que a idéia de mera consanguinidade.
O
Ìpòri resume em si uma espécie de “força ancestral” que faz um elo entre
orí do indivíduo, passando por seus antepassados mais remotos, até
chegar a seus ascendentes divinizados (eledás).
Com
este conceito, explica-se a força espetacular que funda os gêneros
familiares, perpetua as culturas e une os Homens em uma cadeia global.
A
cultura nagô simboliza o ipori como matéria da qual os Orixás escolheram
a massa para nos moldar.
Antes de qualquer oferenda à cabeça, seja um bori, ou a
simples oferenda de um obi, sempre o ipnri deverá ser evocado, numa
saudação aos ancestrais daquela pessoa.
O ipori é então reverenciado pelo oficiante quando este
toca a sola do pé direito (lado paterno) e do pé esquerdo (lado
materno).
Este
gesto é repetido todos as vezes em que um iniciado está recolhido.
Quando os mais velhos tocam a sola dos pés do “recolhido” para
acordá-lo, estão despertando o ipori daquele irmão.
Por
ser tão importante o ìpòri merece um ritual próprio, chamado de culto à
placenta.
Este
rito consiste no ato de enterrar o cordão umbilical e a placenta do
recém-nascido aos pés de uma árvore existente na comunidade onde vive
sua família, a fim de que seja então mantido o elo de ancestralidade que
liga aqueles seres desde o òrun (céu) até o áiyé, despertando assim o
enikéji (nome dado ao nosso duplo etéreo que vive no Òrun). Enikéji: do
Yoruba, Eni – pessoa, Kéji – Segunda.
Orí
Inú é a essência do psiquismo, da personalidade da alma, que deriva
diretamente de Olódùmarè, Deus Supremo. O Orí Inú e nossa essência,
aonde Deus Criador soprou o seu hálito (èmí), e nos criou. O Orí Inú é o
ser interior e espiritual do homem e é imortal.
O
ipnri é peça fundamental a este conceito. O Homem se torna imortal a
medida em que se perpetua na essência de seus descendentes.
Entender o ipori como liame entre o ser e seus ancestrais, reafirma o
forte conceito yorubá de respeito e de gratidão aos mais velhos, bem
assim a necessidade de honrar aqueles que viveram antes e nos
proporcionaram não só a vida, mas as condições de viver.
Contudo, em nenhum momento a reconhecimento do ipori como herança
ancestral, exime o Homem de sua responsabilidade. Antes pelo contrário,
reforça que a pessoa deve valorizar os elementos que herdou para
aperfeiçoar-se, esmerando seu próprio caráter (ìwà).